Avulso & ao Calhas
Olhos nos Olhos
Beijo-te, meu amor, como o amanhecer
(lento e sem pressa)
Beija a luz do dia.
Os dedos das minhas mãos
Nos vértices dos teus lábios dançam.
A seda preta que o teu corpo
De mim esconde,
As minhas mãos desnudam.
E nu,
Com o fogo das quentes tardes africanas,
O teu corpo ousado beijo.
Mário Guarany
Abril (e eu)
Para mim, não foi bem nesse dia que tudo começou… Não foi bem nesse dia que comecei a ser uma pessoa diferente do que era até ali. Foi, curiosamente, também em Abril. Num outro dia. Num outro ano. E numa outra década. Foi a 17 de Abril de 1969. Em Coimbra. Cinco antes do 25 de Abril! Estalara, então, a Crise Académica de Coimbra. (Fez agora quarenta anos). E foi nesse dia que comecei a ser uma pessoa diferente. A pensar. A pensar-me. A pensar sobre as coisas. A dar conta que mesmo "no céu cinzento/sob o astro mudo" “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. A perceber que havia quem, de uma forma organizada e violenta, tinha por missão impedir que o pensamento que clamava por liberdade (e por tantas outras coisas) se espalhasse como "a trova do vento que passa" por todo o país.
Morria também nesse dia (desnecessariamente... percebi, depois, que não era necessário destruí-lo) o meu romantismo dos “verdes anos” e nascia, inevitavelmente, aquilo que chamava pomposa e ufanamente a minha consciência política. Como eu me sentia (estupidamente) bem quando pensava que aqueles que não percebiam as coisas que eu percebia, não percebiam (o que eu percebia) porque não pensavam. Porque não tinham a "tal" consciência política que eu tinha. Que eu tinha adquirido. Eu tinha consciência e eles, pobres coitados, (dizia eu para mim com um discreto, como convinha, sentimento de superioridade) não tinham. Não a tinham. Porque no dia no dia em que a tivessem, julgava eu, o país e o mundo seriam definitivamente diferentes… para melhor (claro!).
Morria, assim, o meu romantismo dos verdes anos. Nascia, dessa maneira, a minha consciência política. E era afinal tão ingénua aquela consciência política que só mais tarde me dei conta, muito mais tarde, que, afinal, nesse dia nascera um outro romantismo. Um romantismo que, julgava eu, ia mudar o mundo. O país e o mundo. Mais ainda: que ia mudar o Homem (que tamanha ingenuidade!). Um romantismo que levado às ultimas consequências (e se assim não fosse levado, não era romantismo) se mostrava e se mostrou intolerante. Muitas vezes até violento, para quem não pensava como nós, para quem não queria mudar o mundo.
(A propósito, lembro-me de um dia, um militar de Abril - talvez aquele a quem mais a democracia deve e aquele que mais pensava e reflectia sobre a revolução de Abril, e que teve, juntamente com outros, grandes responsabilidades no processo de descolonização - ter tido a humildade de reconhecer, a propósito exactamente da descolonização, que se podia (e se devia) ter feito muito melhor. De todo aqueles que tiveram grandes responsabilidades (para o bem e para o mal), foi o único, até hoje, que o reconheceu. Estou a falar do major Mello Antunes. Todos os outros se justificam e se refugiam nas circunstâncias históricas fazendo crer que tudo era inevitável. Nem tudo era inevitável. Nem tudo.)
Ainda assim valeu a pena. Se valeu! Se valeu! Mas se tudo se repetisse haveria coisas que eu também não repetiria. Muitas coisas. Muitas coisas. E uma delas a nível muito pessoal e sentimental (Ah! Sentimental… palavra que eu e outros, estupidamente, nesses anos abandonámos por… não se coadunar com o fervor revolucionário…). E essa foi em Luanda. (Sim, meu amor, estou a falar de ti). Prestaria mais atenção aos outros e a mim próprio. Prestaria mais atenção às vozes dos outros (e, acima de tudo, à tua meu amor) e à minha voz (àquela que vem cá de dentro).
Luminosidades
Luminosidades
Para ti, meu amor (querido)
Muito.
Muito.
Muito.
Muito.
Muito.
Muito.
Amo-te muito.
Amo-te muito,
Meu amor.
Meu amor querido.
Meu amor querido.
Meu amor querido,
Amo-te muito.
Muito.
Muito.
Muito.
(Amo-te muito meu amor querido)
Muito.
Muito.
Muito.
(Tanto, tanto, tanto que me não cansaria, por fim, desfalecer
Repetindo… repetindo… repetindo…
Amo-te muito. Muito. Muito. Muito.
E assim reboar… reboar...
Como infinitamente reboam os sinos, os sinos, os sinos
De Allan Poe)
Lisboa, 29 e 30 Março
Um poema com amor (muito)
E eu não te ouvia
Eras o verde vento que mal soprava
E eu não te sentia
Eras o verde quieto das árvores
E eu não te via
E o azul que se estendia do cimo daquela escarpa
Era o azul do céu que à tarde se incendiava
E eu não percebia…
Eram as cores da íris dos teus olhos…
(E só aí entendi)
Eras tu, eras tu, que vinhas lá longe
E eu não te via
Lisboa, 5/6 de Março
Luminosidades
Luminosidades
Luanda
Até há bem pouco tempo, quando falava de Angola e das suas cidades, tinha a mania e o cuidado de precisar que havia uma cidade que não me deixara saudades! A cidade era Luanda! Que Luanda, tirando, talvez, a ilha e o Mussulo, nada ou pouco me dizia. Para além (claro! claro! claro!) dos amigos (e) do Convívio da Faculdade de Medicina. Saudades, saudades, sentia-as apenas, e fundas, do primordial e eterno Cubal, da moreníssima Benguela, do Lobito (mais) cosmopolita e do mato. Do mato profundo e silencioso das terras do Quendo e do Lutira onde, com a minha irmã e os meus primos (também meus irmãos), passei a meninice à caça das zonguinhas e das rolas, a "conduzir" arcos de bicicleta com a ajuda de pequenos cacetes, ir à pesca com anzóis pendurados em canas de bambu e a tomar banho nos rios sem calcular o risco que às vezes corríamos (os jacarés, como nós, eram também comensais daqueles rios), e que só a estes sítios gostaria um dia, verdadeiramente, de voltar. Luanda não. Luanda serviria apenas para fazer escala e escapulir-me de imediato para aqueles lugares mais longínquos e "sagrados".Mas há uns tempos, no verão passado, disseram-me que a Visão acompanhava a revista que saía nesse dia com dois DVDs sobre Angola dos anos 70. Corri a comprá-los. A revista não a li. Desfolhei-a. Os vídeos, acreditem, também não os vi. Guardei-os. Há certas coisas que só gosto de ver ou ouvir (como um fado do Camané) quando um certo estado de alma se avizinha. (Não vale a pena precisar qual). Guardei-os, como se de um tesouro se tratasse, à espera desse momento.
Aquele estado de alma furtivamente abeirou-se de mim há dias. Lembrei-me dos DVs. Fui vê-los. Comecei com o vídeo sobre Luanda. Foram muitas as coisas que passaram diante dos meus olhos. Foram muitas as emoções que me encheram a alma e muitos os pensamentos que me assaltaram a cabeça, alguns deles contraditórios, outros politicamente pouco correctos, mas todos eles genuínos. Afinal, descobri, que tenho saudades de Luanda! A minha dúvida, se é que na realidade a tenho, é se são saudades de Luanda ou se são saudades daquela Luanda. A Luanda daqueles tempos. Inclino-me visivelmente mais para esta última hipótese. Os Luandenses de hoje e aqueles Luandenses (poucos, muito pouco – mas é sempre assim historicamente) como Luandino, que foram vítimas ou tiveram consciência (como eu partir de uma dada altura também tinha) do regime colonial em que que se vivia que me perdoem mas é mesmo daquela Luanda que, afinal, descobri, que tenho mesmo saudades.
O documentário está muito bem feito. Aliás, creio, que é um documentário feito na época para servir de propaganda ao regime colonial. Uma boa propaganda. Mas a verdade é que a realidade que nos é mostrada estava lá, existia, não era uma encenação. O progresso, a construção de edifícios modernos, as escolas frequentadas indistintamente por meninos brancos e pretos, os liceus, a Universidade, as piscinas, os Cinemas, as esplanadas, os mercados, o trânsito animado, os polícias sinaleiros, as grandes avenidas. Tudo isso estava lá. Claro que havia uma outra realidade que não nos é mostrada. A dos bairros de lata e da luta clandestina, por exemplo, e não menos importantes. Mas tão real era uma como outra. E aquela da qual, afinal, tenho saudades é mesmo daquela que nos mostrada neste documentário! Descobri que tenho saudades, muitas saudades da cidade que, durante muitos anos, eu estava convencido que saudades não me deixara. Sem problemas de consciência, nem sentimentos de culpa é da Luanda colonial que tenho saudades. Muitas.
Luminosidades
O universo dos amigos está também a minguar
Quarto Minguante
As Segundas Feiras
Liberdade
Barack Obama, Mariza e os ventos...
Argumentar-se-á que se exalta o factor genético negro por o candidato viver numa sociedade maioritariamente branca. Não é consistente este argumento. Proponho então este exercício simples: Imagine-se o mesmo Barack Obama, resultado do cruzamento dos mesmíssimos factores genéticos, mas como candidato, por exemolo, à presidência da República do Quénia – sociedade maioritariamente negra. Alguém ressaltaria, chamando a atenção para o ineditismo histórico, o factor genético branco (que também o tem) para o apontar como o primeiro candidato branco à presidência de uma república maioritariamente negra? Ele, candidato, aceitaria, em busca de votos para sua eleição, que invocassem a sua origem branca?
Há semanas, já em campanha, o senador foi ao Quénia visitar a terra natal do pai. Encontrou-se com uma sua avó. Foi um gesto bonito e comovente. Foi um regresso muito aplaudido às suas origens negras. Alguém imagina o mesmo Barack Obama candidato à presidência da República do Quénia, a fazer uma viagem até Wichita (Kansas), terra natal de sua mãe, e visitar, no momento particularmente importante da sua vida, os seus antepassados brancos? Esse regresso às suas origens brancas seria igualmente aplaudido? A imprensa consideraria esse gesto igualmente bonito e comovente?
A verdade é outra. Ter "origem negra" está na moda. Hoje quem tem um ascendência negra ainda que remota não se esquece de a invocar. A Simone de Oliveira já (se) lembrou que tinha uma bisavó negra. A Mariza não se cansa de invocar esse lado africano. Chegamos a um ponto no mínimo curioso: se alguém disser que tem orgulho nas suas origens negras, ainda que sejam remotas, soa-nos bem. Vimo-lo como alguém que não renega as suas origens. E se esse alguém for artista, a imprensa e a crítica começam afanosamente a “descobrir” subtis influências – que até aí não tinha sido detectadas – dessas origens na arte em questão. Porém, se alguém assumisse (o imperfeito de conjuntivo não é inocente…) ter orgulho nas suas origens brancas, soar-nos-ia (a mim também) a uma insuportável afirmação de pendor racista. E se esse alguém fosse uma figura pública, para além de cair o Carmo e a Trindade, os blokistas e outros afins, como cães a um osso, jamais o largariam. São os ventos…
Dito isto, direi que se fosse eleitor democrata nas primárias votaria na Hilary…Já estou a ouvir a alguns comentários surdos do género “cá está… no fundo este tipo é um racista”. A precipitação nunca foi boa conselheira, meus caros. Se fosse eleitor americano entre o Barack Obama e o Cain votaria… no Barack Obama!
Ciranda o sol
De nascente a poente
De poente a nascente
Arco perfeito de um magoado violino
Ciranda lenta e em descrente procissão
Como se fora um solitário peregrino
Não procura a lua (o poeta é um fingidor...)
Procura a nua
Verdade das palavras por dizer
(Ó mar! Ó mar! Ó longínquo luar!)
Ciranda o sol
De nascente a poente
De poente a nascente
Arco perfeito de um magoado violino
Não procura a lua
Procura a rua
Onde ela, luar desfeito, aos Domingos vai rezar
Nem sinal da cruz...
Nem sinal de luz...
Senhora da Guia 4/5/08
Luminosidades
Eram claros os dias
Escrevi até ao princípio da manha aparecer na janela. (.......................). O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando, me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de escrever e, de cada vez que repetia o exercício, conseguia escrever duas palavras ou, numa máximo uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama, adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim."
Bela... e serena como a brisa calma
Que amena atravessa a cidade
Rio... rio leito de claridade
Que meigo corre entre as pedras de minha alma.
Vento que sopra, brando, a vela da minha barca
Rumor... rumor de madrugada
Cântico que os pássaros rumorejam
Murmúrio antigo de uma ária inacabada
Lisboa 21/3/08
Luminosidades
Palvras reescritas (em jeito de poema)
E isso que importa?
continuas bonita e luminosa
como aquele raiozinho de sol
que todos os dias bate na vidraça da minha janela
Bonita e luminosa
como naqueles dias distantes de convívio
(tão distantes e tão indelevelmente presentes)
E isso é que importa!
Escuta…
Vou segredar-te uma coisa.
Com serenidade.
Com a mesma serenidade com que aquele raiozinho de sol
ao cair da tarde abandona a vidraça da minha janela.
Uma coisa que não é coisa.
Que não sendo coisa
é mais, muito mais, que coisa
É coisa de alma
(etéreo aroma)
que há muito sinto
e que juro, juro, não minto
Gosto de ti.
Minha roma.
(e tu sabias)
Lisboa 27/2/08 e 19/3/08
Viagens e memórias...
A Noite de Reveillon
2008
Foi esta a mensagem que enviei aos meus amigos no últino dia do ano passado. Aqui fica registada.
Marcas indeléveis (do Império...) - 12
CabindaNão sei se devia terminar a legenda com reticências ou com um ou mais pontos de exclamação. Juraria, no entanto, que quem acompanhe a série da RTP "guerra colonial" do Joaquim Furtado, (e não tenha estado em Angola nesses anos), perante esta foto ( e outras como a de baixo) optaria pelos pontos de... admiração!
Estação do Luso Luminosidades e coincidências...
Espantoso...
A mensagem que muito me tocou dizia o seguinte:
Luminosidades...
Eleições em França ...
Luminosidades...
25 de Abril...
Viva Abril! Que para ti, eu sei, é ainda uma "jornada de luta" mas que para mim é apenas evocação, memória e festa (interiores) onde entras sempre, sempre. Tu e outros amigos.»
O amigo de que falo é o meu querido amigo Hermínio.
Luminosidades...
como ontem antes de ontem,
o céu continua azul.
Continua azul, azul, azul!
Continua azul...
para lá do cinzento das nuvens
(negro, quase negro)
que cobre todo o azul, azul, do céu.
Um amigo de sempre e para sempre
O regresso das luminosidades...
Luminosidades...
A nossa escola
Luminosidades...
Pequenos pedaços de poesia (II)
Luminosidades...
Voos da Águia
O segundo holocausto

Quotidiano
Luminosidades...
que em cíclicas ondas
Recolhe-se uma taça rasa
da quente e cálida sangria,
Dissolve-se uma mão cheia
de leve, leve, melancolia.
Agita-se (com gesto e jeito de escanção).
Dá-se-lhe um cheirinho
a maresia.
Um travo de wisky
dois ou três cubos de gelo
e pronto…
Leva-se à boca
em repetidos e amenos versos,
à mistura com pianíssimas notas de Chopin
(de preferência os nocturnos 1 e 3)
Referendo
Luminosidades...
Porto - 0 Estrela do Amadora - 1
Benfica - 0 Boavista - 0
Era um dos nossos guarda-redes...
Nunca ninguém o conseguiu contactar para aparecer no Encontro (dos antigos estudantes do Cubal). No nosso Encontro. Ninguém sabia o seu paradeiro. Todos os anos se fazia um esforço para o contactar. Mas, nada. Dizia-se que andava pelo Barreiro. E eis que ontem, já ao cair do pano, abruptamente, em vez dele, é anunciada a sua morte. Em Gouveia. Não quis acreditar. Em vez de sinais de vida que há muito procurávamos, é a morte dele que se apresenta. Mais valia estar quieta. Quietinha. Ninguém a chamou! Porra!
Tinha aparecido no Cubal já nos anos sessenta, vindo da Metrópole, do Puto, das berchas. (era assim que na nossa linguagem nos referíamos a Portugal). Tímido, ingénuo, mas destemido - alías, guarda-redes não podia ser de outra maneira. Quando lhe deram os kedes (hoje ténis) para calçar e jogar pela Associação Académica do Cubal, chamou-lhes – muito apropriadamente – sapatilhas. Azar dele. Ficou para sempre "o Sapatilhas". Nunca mais se livrou do nome.
Até sempre Sapatilhas. Até sempre.
Luminosidades...
O meu Cinema Paraíso
A segunda vez, anos mais tarde, já iniciado nas minhas andanças de cavaleiro marxista, recusei vê-lo. Era uma patética história de amor (pequeno-burguêsa, claro) e contra-revolucionária!
Ontem foi a terceira. A fotografia continua a esmagar-me. A história de amor é uma história de amor. Falta-lhe, pareceu-me agora, paixão, sensualidade. A música é indissociável do filme. Não podia ser outra. A Christie continua linda, linda. Fez-me lembrar a minha colega da faculdade… (revia-a há pouco tempo, continua linda!)
A leitura política que faço da película é que sofreu uma… reviravolta! E era aqui que queria chegar. Perturbou-me o filme. Perturbou-me ver como que um idealista – Pasha Strelnikoff – se transforma, em nome da revolução (sempre em nome da revolução…) num tenebroso sanguinário. Incomodou-me o filme. Incomodou-me sentir que eu, em circunstâncias idênticas, fizera, (salvaguardas as diferenças de protagonismo, claro!) o mesmo e cretino papel – o de guarda da revolução. Ainda que este se tivesse apenas quedado pelo plano ideológico. Mas a verdade é que defendera os mesmos princípios: o partido acima de tudo – família, amigos, afectos. O partido acima das pessoas. Em nome do povo. Sempre em nome do povo. Em nome das massas populares! (era assim que dizíamos). Interpelou-me o filme. Profundamente: se em 75 a revolução leninista tivesse triunfado (não esteve longe disso), até quando é que desempenharia aquele papel? Até quando? Mais. E, talvez, mais angustiante: qual era a linha que eu jamais ultrapassaria? Assustou-me perceber que quando (e enquanto) se acredita na revolução e no partido essa linha de demarcação é muito ténue. O partido toma conta do coração e apodera-se da razão. O partido passa a ser a razão de sermos. E a razão passa a ser a do partido. E é aqui, neste ponto, que se é capaz das maiores crueldades. Basta que a revolução o exija. Basta que o partido ordene.
Incomodou-me. Mas fez-me bem ver o filme. Recomendo-o aos meus amigos (e cavaleiros que foram comigo) das andanças marxistas.
Marcas indeléveis (do Império)... 4

Clube Desportivo Ferrovia - cidade do Cubal
Repare-se nas linhas arquitéctónicas. A foto é da época (1962?), mas a modernidade do edifício é actual. Actualíssima. Era aconselhável que o "ippar" de Angola iniciasse a inventariação e preservação do património respeitante ao período colonial. Estamos a falar do património de Angola. Nossas são apenas as marcas indeléveis.
O Sombreiro, visto do lado da Caotinha"Viagens com ou sem memória" (3)
O Presidente da República mostrou-se surpreendido com os inúmeros sinais que os portugueses deixaram na Indía. Não imaginava ele que a nossa presença por aquelas terras tinha deixado marcas tão indeléveis.
O que a mim me surprende é a sua surpresa. Há uns livrinhos de História que contam tudo.
Antecipando outras viagens do Presidente da República aos novos países da lusofonia e a fim de lhe poupar novas supresas, inauguro hoje uma exposição fotográfica avulsa e ao calhas sob o tema:
"Viagens com ou sem memória" (2):
Isto foi parte do que, há uns anos, escrevi, talvez com excessiva emoção, a propósito da morte de um antigo professor e da morte do meu pai que então se esperava para breve.
Subscrevo: "viagens com ou sem memória" de J.Pacheco Pereira

Subscrevo:
"A morte de Saddam Hussein" de José Pacheco Pereira in Abrupto. Muito em particular o 3.º parágrafo.

O ano era 1964, em tempo de férias grandes, e o filme tinha como "artista principal" o Aznavour e nele participavam também a Silvie Vartan e o Jonny Holliday e chamava-se "À procura do Ídolo" (Cherchez L'Idole).

Foto tirada e acabada de enviar pelo Henrique. Obrigado, meu caro.
O que fazem as canções, as grandes canções...
Petição contra a implementação da TLEBS
Há dias Pedro Mexia ridicularizava assim a tlebs!
A Cozinha de Manhufe
Vou votar sim. Mas há argumentos e questões que o não levanta a que sou sensível e me fazem reflectir:
"Sentimentos misturados" J. Pacheco Pereira in Abrupto (1.12.06)
"Claro que ninguém vai ao teatro, claro que acabaram os cafés (pelo menos em Lisboa), claro que se desertificaram os bairros, claro que acabou a Lisboa dos anos 60, tão íntima como provinciana, onde éramos os absolutos cosmopolitas, exactamente porque os filhos dos deserdados das cheias, os filhos dos operários do Barreiro, os filhos das criadas de servir, os filhos dos emigrantes de Champigny, os filhos da "canalha" anarco-sindicalista e faquista de Alcântara mandam no consumo e o mundo que eles querem é muito diferente. Eles entraram pelos cafés dentro e transformaram-nos em snackbars e em lanchonetes, entraram pelas televisões e querem os reality shows, entraram pela "cultura" e pela política e não querem o que nós queremos, ou melhor, o que nós queríamos por eles. O acesso das "massas" ao consumo material e "espiritual" faz o mundo de hoje, aquele que é dominado pela publicidade, pelo marketing, pelas audiências, pelas sondagens. É um mundo infinitamente mais democrático, mas menos "cultural" no sentido antigo, quando a elite, que éramos nós, decidia em questões de bom senso e bom gosto. E agora? Queríamos que "eles" tivessem voz e agora que a têm não gostamos de os ouvir quando o enriquecimento revelado por todos os indicadores económicos e sociais dos últimos 30 anos transformou muitos pobres na actual classe média, "baixa" como se diz na publicidade, nos grupos B e C das audiências. Nós queríamos que eles desejassem Shakespeare e eles querem a Floribella, os Morangos e o Paulo Coelho. E depois? Ou ficamos revoltados ou pedagogos tristes e ineficazes, ou uma mistura das duas coisas. Nós ajudámos a fazer este mundo de mais liberdade e mais democracia, que o é de facto. O 25 de Abril foi o que foi porque a geração de 60 o fez assim. Se os militares tivessem derrubado Salazar nos anos 40 ou Delgado o tivesse feito em 1958, o país seria certamente muito diferente."











